Por Nágila Câmara

O jornalismo existe para tratar os fatos da maneira mais objetiva e imparcial possível. Embora não seja exatamente isso o que acontece na prática.
Muitas vezes, nos vemos cercados de subjetividades implícitas e parcialidades que avassalam, principalmente, a opinião pública em casos de grande repercussão e até aqueles brevemente comentados pela mídia. O fato é que alguns veículos de comunicação vão além, e insistem em romper com a chamada “ética jornalística”.
Esse conjunto de princípios morais que devem ser respeitados no exercício de uma profissão acaba se confrontando com os ideais daqueles que a exercem. O problema é quando essas tais ideologias interferem na transmissão das informações, sendo elas relevantes ou não.
Todos os que se atrevem a escrever uma notícia precisam tomar os devidos cuidados para não ultrapassarem o estreito limite que separa o informativo, o interpretativo e o opinativo. Mesmo não sendo intencionalmente (por parte de alguns), os jornalistas são os responsáveis pela formação da concepção de quem os lê ou ouve.
Recentemente, o caso do jovem Wellington Menezes de Oliveira, 24 anos, que atirou e matou 12 crianças em uma escola municipal em Realengo, no Rio de Janeiro, – além de ferir a outras e cometer suicídio após ser baleado por um policial quando se dirigia ao terceiro andar do prédio, evitando uma tragédia ainda maior – choca o país tanto pela brutalidade das mortes e a frieza do rapaz quanto pela cobertura promovida pelas redes midiáticas.
O sofrimento das famílias das vítimas é explorado descaradamente. A família do atirador é questionada o tempo todo, na tentativa de encontrarem uma justificativa plausível para o ocorrido. Não obstante, revelam detalhes sórdidos, que não acrescentam em nada, e acarretam em pré-julgamentos, inclusive, de práticas religiosas das quais o “réu” nem sequer participava ativamente.
Uma dose “singela” de sensacionalismo, acrescido de ideologias de ambas as partes (dos que revelam a notícia e do responsável por seu acontecimento), um pouco de transtornos psicológicos e um passado de sofrimentos e, no entanto, não se sabe explicar a motivação do crime.
Enfim, o modo como a imprensa trabalha para transmitir informações a seus “expectadores” atrapalha a percepção e a conclusão da sociedade, determinadas pessoas não desenvolvem uma interpretação particular, apenas fundam suas opiniões com base no que a mídia lhes oferece.
Esse rompimento com a ética jornalística é um caminho perigoso e vicioso que, acima de tudo, prejudica o próprio veículo que o promove, tornando-o mal visto aos olhos dos que procuram credibilidade e informações reais, sem interpretações parciais e convenientes. E, contrariando Nicolau Maquiavel, os fins (vender a notícia) não justificam os meios (invadir o padecimento alheio para penetrar a sensibilidade das pessoas).
